Leia abaixo o documento final do “I Seminário de Agentes Culturais em Políticas Públicas: desafios e perspectivas”, que aconteceu no sábado, 9 de agosto, durante a 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná, e reuniu operadores populares de cultura, saúde, economia e cozinhas solidárias para fortalecer laços e estimular o trabalho estratégico em rede.
Somos fruto de uma longa caminhada que nasceu das lutas populares e da organização coletiva nos territórios. Carregamos a memória de quem resistiu e construiu, de quem fez das comunidades um espaço de vida, de dignidade e de sonhos.
Os Programas de Agentes Territoriais surgem dessa história: da compreensão de que é no chão onde o povo pisa, trabalha, se alimenta, canta e cuida da sua saúde que se constrói um Brasil soberano e popular. Essa força vem de baixo, mas olha para o horizonte, tecendo pontes entre as necessidades urgentes e o projeto de país que queremos.
A nossa presença nos territórios não é apenas técnica, é compromisso de vida. Atuamos onde a política pública precisa chegar com mais força e onde, muitas vezes, ela nunca chegou. Integramos o saber popular à prática institucional, fazendo da educação popular a espinha dorsal da nossa ação.
Na saúde, na cultura, na alimentação, no trabalho e na renda, levamos a mão estendida, a escuta atenta e a capacidade de mobilizar. Sabemos que cada ação tem mais força quando é feita junto, conectando programas, realidades e pessoas que compartilham o mesmo desejo de transformação.
Nós somos agentes territoriais vinculados aos programas do Governo Federal e reconhecemos que o que nos move é muito maior que qualquer política isolada: é o compromisso com um país que cuida, que alimenta, que respeita a diversidade cultural, que garante direitos e que constrói alternativas econômicas solidárias.
Nesta Jornada da Agroecologia, reafirmamos que é no encontro entre campo e cidade, entre a luta ambiental e a luta social, que a nossa ação floresce. Este seminário é fruto de uma construção metodológica estruturada a partir de um processo colaborativo entre Comitês e Agentes de Cultura, da Economia Solidária, da Saúde Popular e das Cozinhas Solidárias, conduzido em quatro momentos: (1) mística de abertura; (2) apresentação dos programas e relatos de experiências; e (3) trabalho coletivo para sistematização de convergências, propostas e desafios (4) plenária final.
Convergências identificadas nos territórios
* Educação popular como eixo integrador entre saúde, cultura, alimentação e trabalho/renda;
* Reconhecimento do protagonismo feminino, especialmente de mulheres negras para o devido combate às desigualdades de gênero e raça;
* Entendimento das comunidades como pontos de conexão entre políticas públicas e população;
* Valorização de saberes e fazeres tradicionais, das plantas medicinais à arte popular, integrando memória, identidade e geração de renda;
* Necessidade de descentralizar saúde e cultura, levando serviços, espaços e atividades para dentro dos territórios;
* Conexão entre cultura, saúde, alimentação e geração de renda.
Propostas para integração dos programas
* Criação de feiras e encontros, territoriais e interterritoriais, integrando cultura, alimentação saudável, comercialização de produtos da economia solidária, saúde preventiva e formação popular;
* Formação continuada e conjunta para agentes e lideranças comunitárias, com metodologias participativas e diálogo de saberes;
* Conexão das ações dos programas com políticas de extensão universitária e com redes locais de apoio e mobilização;
* Divulgação ampla dos programas e resultados, para que a população compreenda e reconheça seu papel transformador;
* Coordenação interministerial com agendas unificadas, fortalecendo recursos, estrutura e logística para atuação integrada.
Desafios a serem enfrentados
* Falta de integração institucional entre os programas e ausência de diretrizes unificadas;
* Escassez de recursos e infraestrutura, incluindo transporte, equipamentos e espaços adequados;
* Baixa visibilidade das ações e desconhecimento da população (e do próprio governo) sobre o papel dos agentes;
* Desigualdade nas condições de trabalho e bolsas entre diferentes programas;
* Necessidade de combater preconceito e desvalorização do trabalho comunitário.
Compromisso
Acreditamos que a integração dos programas de Agentes Territoriais de Cultura, Economia Solidária, Saúde Popular, Cozinhas Solidárias e demais agentes territoriais é um passo fundamental para consolidar um projeto de país que valoriza seus territórios, promove justiça social e constrói soberania. Com base no que foi debatido e sistematizado neste encontro, reafirmamos nosso compromisso de seguir atuando de forma articulada, fortalecendo a educação popular, valorizando o protagonismo popular e construindo, com a população, políticas públicas transformadoras.
Curitiba, 9 de agosto de 2025.
Crédito da foto: Vino Carvalho.